segunda-feira, 23 de março de 2009

O parto

Gritos. Passos apressados. Uma criança chorando alto. Uma voz de mulher ecoava na madrugada. Alvoroço, barulho, confusão. Acordei. Não era sonho. Os gritos continuavam, a correria também. A mulher gritava, a criança com a voz aflita chamava "Papai, papai". Meu coração disparou. Algo estava errado, algo estava acontecendo. Se fosse em São Paulo, poderia ser um assalto, um atropelamento, um acidente de carro, mas estávamos ali, na praia, um lugar pacato, sem muita gente, sem violência aparente.
Saímos na sacada, a confusão vinha da casa do vizinho, as vozes e o barulho permaneciam. Alguém corria de uma lado para o outro, a mulher já tinha parado de gritar, mas a criança continuava. Estava tudo escuro, não conseguíamos enxergar nada. Em uma das passadas, uma das palavras fugiu da boca do homem: "cordão umbilical". Um ponto de interrogação cresceu sobre nós. Encaramos-nos e apuramos os ouvidos para tentar escutar um pouco mais.
De repente, entre as vozes e a correria, conseguimos distinguir o choro de um neném, fino e baixinho. Foi quando tivemos a certeza de que ali, ao nosso lado, tinha acabado de nascer uma criança, às 4:12 do dia 22 de março de 2009. Voltamos para o sono, com o alívio de que não foi nada mais grave. Demorei ainda para dormir e ouvi um carro chegando, deduzi que era para levar a mãe ao hospital (já que o mais próximo fica a pelo menos 40 minutos de distância). O chorinho agudo ainda ecoava na noite e a mãe tentava acalmá-lo. Voltei a dormir e sonhei com muitos outros nascimentos naquela madrugada.

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