quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Cadê minha inteligência?

Qual é o auge da nossa inteligência? Se eu paro para pensar nessa pergunta, acredito que o meu já tenha passado. Ou também que ser inteligente é muito relativo. Hoje, eu preciso de uma calculadora para fazer 57 + 28, na escola, eu fazia quase instantaneamente. No colégio, eu sabia a história completa do nascimento dos Estados Unidos e da Guerra do Paraguai. Sabia que aa com aa só podia dar aa (tudo bem, essa é fácil e eu sei até hoje), sabia a hidrografia do Maranhão e quais os Estados brasileiros faziam cultivo da cana de açúcar. Sabia todos os componentes da mitocôndria e quais suas funções, sabia que se misturássemos prata mais sulfato de dióxido de carbono dava sei lá o quê. Sabia fazer equações que ocupavam folhas e mais folhas, sabia Báscara! Sabia as regras de acentuação de uma oxítona e sabia quais os tipos de predicado, sabia o que era o trovadorismo. Poucas coisas que aprendi na escola e no colegial ficaram na memória, em relação aos estudos, claro. A regra da crase é uma delas. Vou compartilhar com vocês: "Vou à, volto da, crase vou usar. Vou a, volto de, crase pra quê". Ou seja, Volto da França, então vou à França, com crase. Volto de Salvador, então vou a Salvador, sem crase. Essa é muito de Professor Pasquale.
Enfim, na faculdade, aprendi mais a encher linguiça nas pouquíssimas provas que tive. Talvez a minha escolha de carreira tenha me emburrecido em certos aspectos. Tínhamos que escrever bonito nas provas de Filosofia e Antropologia. Depois, tínhamos que analisar bastante na Semiótica e interpretar os mais diferentes autores na Teoria da Comunicação. Se a resposta tinha que ser exata, não era problema deixar uma folha embaixo da prova com o gabarito. Se o trabalho era em grupo, a internet fazia a maior parte. Se era preciso escrever uma reportagem, dava asas à imaginação. Poucas foram aquelas feitas na não-ficção. À esta altura, eu já não sabia mais fazer contas, não sabia o que era a Revolução Farroupilha e nem quais são os órgãos do sistema digestivo.
Por isso, acho que emburreci na faculdade. Contentava-me com notas para passar. Um sete era ótimo. Um cinco também, passava, afinal. No primeiro ano, essas notas me incomodavam. Nossa, eu sempre ia muito bem na escola. Ganhei bolsa por ser melhor aluna, tomei café-da-manhã com meus pais e a diretora e uma vez, ganhei uma medalha bonita em uma cerimônia. Um sete era uma tragédia no colégio. Um sete, passou a ser um simples sete na faculdade. E se eu não tinha estudado muito então, um sete era uma alegria. A percepção tinha sido completamente alterada. Claro que aprendi a escrever melhor, a analisar melhor, a criar melhor também. Tudo, na teoria, deveria ser importante para minha carreira, mas, claro, que na prática é tudo bem diferente.
Depois de tudo, o que levamos para a vida mesmo do que aprendemos estudando é muito pouco. Quando era útil, a gente sabia. Quando paramos de usar, perdemos. Há as aulas marcantes, como aquela que tivemos que trazer músicas da época da ditadura ou aquela em que o tema do seminário era "O diabo existe?" e entramos na sala ao som do "Xô, Satanás". Mas, as que realmente vão ficar pra sempre são aquelas que aprendemos para a vida ou a que nos divertimos tanto (como no dia em que uma querida amiga derrubou o chá gelado da Prof. Silvia Suada inteiro na mesa) que será difícil perdermos por simples falta de uso.

Um comentário:

Thales disse...

Predicado não é um doce que vende no Amor aos Pedaços?
E eu ouvi dizer que agora não é mais sistema digestivo, e sim sistema digestório.
Beijos