segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Pode beijar a noiva


No ano em que tive mais casamentos em toda a minha vida, parei para refletir algumas das palavras tradicionais ditas pelo padre na hora do altar. No total, foram cinco e um ainda está por vir, todos foram religiosos e por isso tiveram a tão esperada troca de alianças, em que a noiva soluçando jura fidelidade ao recém-marido trêmulo de emoção.


Não ouvimos mais a frase bombástica, "se tem alguém contra, que fale agora ou cale-se para sempre", aquela que todo mundo um dia queria estar presente em um desses casamentos de Hollywood, em que o mocinho chega e rouba a noiva do altar. Mas, isso nunca aconteceu na vida real ou pelo menos, nunca soubemos de um conhecido, amigo do primo do pai da fulana que foi em um casamento assim.


Sábado passado foi o meu quinto, a noiva linda, como sempre, a igreja lotada e bem decorada. Chegou a hora do juramento: "Noivo, promete ser fiel, amar e respeitar a noiva, por todos os dias de sua vida?", "Sim.", "Noiva, promete repeitá-lo, amar e ser fiel, bla bla bla bla", "Sim". Ao meu lado, minha amiga vem com a pergunta: "E se alguém fala não, o que acontece?". Não sei, não sei o que acontece. Respondi pra ela que ninguém iria falar que não. Não pode. Você está lá para falar que sim. Você foi até lá para ouvir um sim. Você paga uma fortuna por esse sim.


Os discursos dos padres variam em todos os casamentos, nos mais informais, ele brinca com os noivos, no que fui madrinha, ele até esquece o nome dos noivos, mas uma das mudanças mais significativas ao longo dos anos é o final do sermão. Quando eu era pequena, ele dizia: "Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe". Quando cresci, passei a ouvir algumas variações e o lance da morte foi extinto de vez: "O que Deus uniu, o homem não separa" ou "O que Deus uniu, ninguém separa" ou até mesmo "Que o homem não separe". Ou seja, o homem virou um problema para o matrimônio. Ele mesmo quer casar, mas ele mesmo é o responsável pela sua dissolução. De que valeram então, todos os sins deixados no altar como juramento? De que valeram os tensos preparativos, as mãos dos convidados abençoando o casal, as flores enfeitando a igreja e as fotos amareladas no álbum velho? A certeza não deveria ser infinita? E o para sempre, aonde foi parar?


Em mundo, em que, cada vez mais, os valores estão perdendo a sua força e o nós cede seu lugar para o eu, a instituição do matrimônio também perde sua força. Hoje, não precisa ser casado para ser marido e mulher. Hoje, homens e mulheres são casados três, quatros vezes. Hoje, filhos de cinco casamentos do pai brincam em volta da árvore no Natal. Será que não perdemos um pouquinho de nós mesmos durante todas essas relações? Será que não é possível acertar de primeira?


Para aqueles que presenciei e abençoei durante esse ano, desejo que sejam felizes para sempre. E nada desse papinho que "seja eterno enquanto dure".

3 comentários:

Thales disse...

É... por exemplo, a gente tá tentando tratar de todos os possíveis problemas antes de casarmos, né? Por isso que a gente arruma tantos deles.
Boa essa desculpa, né?
Beijos

Ale disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ale disse...

Se acertares à primeira deixa de ser a primeira e passa a ser a última...
Os sins do altar valem o mesmo que cada beijo apaixonado e cada palavra de amor, porque os sentimentos não são lógicos, previsíveis nem obedientes, mas sim, são eternos enquanto duram!