quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Tragédias sem manchete

Aproveitando o gancho do louco suicida de ontem, há uma semana atrás, estava passando de carro pela Sumaré de noite com uma amiga. Eram umas 9:30 e paramos no farol abaixo do viaduto do metrô. Quando olhamos para o lado, havia um cara deitado na calçada, barriga à mostra virada para cima e braços jogados para trás. A primeira impressão foi a de um bêbado que encheu a cara o dia todo e não suportou sua ressaca, mas depois de olhar melhor chegamos a conclusão de que estava morto.

Alguns metros mais à frente, os piscas de dois carros recém-parados na pista brilhavam. As pessoas apontavam para cima e para baixo. O farol abriu. A primeira pergunta da minha amiga foi: "Será que ele pulou?". Respondi que nem sabia se ele estava morto. E ela: "Mas você não viu a cabeça dele toda ensangüentada?". Não, eu não tinha visto...

Ficamos com o fato na cabeça até a chegada na aula de patinação. Como ele poderia ter caído tão certinho se tivesse mesmo pulado? Teria se jogado e depois se arrastado até a calçada? Ou foi um tiro na cabeça? Será que não foi atropelado e o motorista fugiu? Até que ela me perguntou: "Você teria coragem de ir lá ver?". Respondi que sim, sem pensar muito. Mas, por que teria?

Fiquei pensando em como as pessoas são atraídas pela tragédia. Acidentes, pessoas mortas e confusões sempre formam rodinhas de curiosos em volta. A maioria do trânsito formado pelos acidentes nas vias de São Paulo é devido aos motoristas que passam a 5 km/h para observar a desgraça mais de perto. Qual a porcentagem de reportagens que não falam sobre tragédias nos jornais e noticiários de TV? Menos que 50%, com certeza. Comprovando isto, está o nosso famoso "Aqui e Agora".

Já me perguntei por que os jornais televisivos - principalmente estes porque podem se valorizar das imagens para tornar o ocorrido mais sensacionalista ainda - não produzem matérias mais leves e positivas para a sociedade. Produzem porque dá audiência. Produzem porque o povo quer ver. Ver pra quê? Quem precisa ver o sofrimento de uma família que perdeu um filho em uma chacina no interior do Mato Grosso? Ou será que todos acabam vendo justamente porque só passa isso na TV?

Depois da aula, passamos de novo no local aonde estava o morto e comprovamos sua morte. Havia um carro de polícia cercando o local - o resgate não pode ser acionado quando a pessoa já está morta - e esperando pelo IML. No dia seguinte, procuramos em todos os lugares para saber de fato o que tinha acontecido e quem era o homem. Não encontramos nada, em lugar nenhum. Por mais que fosse uma tragédia, era muito pequena comparada às grandes manchetes que os jornais tinham estampadas em suas capas naquele dia.

Passei por lá novamente. De manhã, só restava o sangue na calçada e nenhum vestígio de uma das milhares de pequenas tragédias que acontecem diariamente no mundo.

3 comentários:

Thales disse...

Puta merda... Essa postagem me fez pensar, pensar, pensar... Porém, ao contrário das outras, essa minha conclusão está longe de ser concluída. Pegou?!?!

Até perguntei pra um amigo: "Por que o ser humano se interssa por tragédias?". A resposta: "Porque o ser humano é uma bosta."

Eu gostaria de acreditar que algumas tragédias mostradas na mídia visam provocar o telespectador (ou leitor), a fim de gerar uma revolta que motive uma manifestação conta os irresponsáveis que não evitaram algo daquela natureza.

E por que somos curiosos? Porque faz parte da nossa natureza.

Talvez faça sentido...

Renan disse...

existe um tratado jornalístico que foi firmando em uma convenção internacional de jornalismo que indica que notícias sobre suicídio não sejam divulgadas para diminuir o número de 'interessados'.

mas isso é só uma pequena parte das tragédias, claro.

Ale disse...

Ainda bem que tu só fizeste um blog agora, imagina se eu tenho lido estas coisas antes de ir para São Paulo? Não ia mais! E by the way, como aliás eu já te tinha explicado, patinação parece criança de 5 anos a falar, é patinagem que se diz! ;p